Gostaria de avisar aos futuros, virtuais e eventuais leitores deste blog (pois sei que atuais não existem) que me acho no direito de, eventualmente, ser pedante.
Lembro-me que uns anos atrás (6, 7 nem sei mais) eu e um amigo (o Pedro) criamos um canal de mirc chamado #pedante. Na época a gente acessava vários canais, a maioria bem legais e com pessoas bacanas, mas na maioria deles a gente se sentia meio acuado quando falava na sala aberta sobre certos assuntos, tipo cinema, literatura, filosofia. Para mim, ao menos, e ao menos inicialmente, essa foi o principal motivo de criar um espaço só pra nós e uns amigos mais próximosque não fossem achar que a gente estava sendo babaca quando falava sobre esse tipo de coisa.
Sempre me pareceu muito esquisito que as pessoas possam discutir detalhes específicos sobre o timbre do fuzz da guitarra num lado b de uma banda quase-esquecida, sem que isso seja considerado anormal, mas que quando você comente algo banal sobre um autor bem popular (tipo "wow, comecei a ler um livro do Nabokov e tô gostando pra caralho") as pessoas torçam a cara pra você e achem que você tá falando isso pra parecer mais inteligente que os outros. Decorar a ordem dos episódios do Star Trek e disputar conhecimentos sobre raças criadas por J. R. R. Tolkien é OK, mas bater papo sobre a última premiação de Cannes é um pedantismo ridículo.
Claro, existe uma diferença entre uma suposta "high art" e coisas nerds, exploitation, e pops em geral, ou música clássica/jazz e subgêneros do rock, reggae, eletrônico. Segundo Bourdieu (ops!) todas são usadas para se distinguir "dos demais", mas só as primeiras servem para se colocar como participante de uma certa elite cultural, o que supostamente incomoda muitas pessoas que não fazem parte dela (e quase sempre nem querem fazer, ou simplesmente não gostam do cânone literário, cinematográfico, etc.). E é claro que existe gente que faz isso. Me lembro do canal #filosofia e do #illuminati do IRC: uma coleção de gente boba falando sobre o que não sabe pra parecer fodão (com exceções, claro).
Mas só que o que os críticos esquecem (e Bourdieu, é claro, está incluído dentre "os críticos") é que simplesmente existem pessoas que gostam dessas coisas. De verdade! E gostam também de conversar sobre isso, sobre essas coisas que fazem elas pensarem, se divertirem, verem as coisas de um jeito diferente, e seja lá o que for que se faz com filmes e livros. Sem mais! Sem distinção, sem sobrancelha elevada, sem menosprezar os outros. Sim, as obras as vezes afetam as pessoas: nem sempre são as pessoas que são afetadas (hehe). Acaba sendo muito mais comum, pelo que vejo, o preconceito ao contrário, o preconceito contra as pessoas que gostam de coisas cults ou artísticas do que o preconceito desses últimos contra os filisteus em geral.
Reservo-me, então, o direito ao pedantismo. O que não quer dizer que eu não adore coisas nerds, exploitation e pops em geral. Nem quer dizer que vou ficar cuspindo Nietzsche e Bergman em todo post que eu puder. Deus me livre. Só quero poder falar das coisas que eu gosto sem o risco de parecer que tô empinando o nariz. Foi mal, mas filosofia, ciências humanas, literatura e cinema (de arte, muitas vezes) fazem tão parte da minha vida quanto música, quadrinhos, internet, cerveja. Então, como diria Axl Rose "viva e deixe viver", e não pense que todo mundo anda no mundo como se estivesse numa grande vitrine.
(e só voltando um pouco na história, o #pedante acabou virando um canal bem movimentado por um bom tempo, depois foi um blog, uma lista de emails e uma comunidade de orkut - todos andam sem movimento ou fechados, mas serviram pra estreitar laços com um monte de gente que eu gosto um monte até hoje, a maioria bem pouco pedante, mas quase todos com uma coleção interessante de livros, discos, divxs e coisas parecidas)
Nossos tempos e o desassossego
17 horas atrás
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