29.10.08

"Persepolis", de Marjane Satrapi


Já que o assunto é "coisas que eu ando lendo", acho que vale a pena falar que esse álbum de quadrinhos da iraniana (ou melhor, persa) Marjane Satrapi é uma das coisas mais empolgantes que eu li esse ano, comparável apenas com "Trilogia de Nova Iorque" do Paul Auster. Eu sei, eu sei, quase todo mundo já leu, e já devem também ter visto o filme (que eu baixei mas ainda não vi), mas eu, atrasado como sempre, me encantei com "Persepolis". É daqueles álbuns que atingem o auge das histórias-em-quadrinhos: contam uma história profunda e fascinante de um jeito leve e despretensioso, com desenhos precisos, design de personagens e de página foda. Completamente viciante, li em três dias. E isso que eu quis ir devagar pra aproveitar por mais tempo!

Pra quem possa interessar, nesse link tem uma entrevista em quadrinhos bem legal com a autora.

26.10.08

"A Carne", de Júlio Ribeiro

Estive lendo "A Carne", romance naturalista brasileiro do paulista Júlio Ribeiro, de 1888. O livro não é de todo ruim, de verdade. Mas tem umas coisas que hoje em dia soam muito, muito medonhas, mas que na época eram normais. Mesmo contextualizando, é de arrepiar. Pra começar, racismo. Separei uns trechos especialmente toscos e/ou bizarros. O primeiro é uma cena na qual o autor descreve uma reunião noturna onde os escravos cantam:

"A voz do cantor, fresca, modulada, de um timbre sombrio, coberto, tinha uma doçura infinita, um encanto inesprimível.
"Fechando-se os olhos, não se podia crer que sons tão puros saíssem da garganta de um preto sujo, desconforme, hediondo, repugnante"

Mais pra frente, um filho de escravo prende o braço no engenho de cana; para salvar a vida dele, o pai pára a máquina com uma barra de ferro; a moenda quebra e o menino perde o braço:

"Lá pelo crioulinho não: era ingênuo, era 28 de setembro*, ficasse aleijado, pouco prejuízo havia. Que o azar era a interrupção da moagem, quando ia tudo correndo tão bem [...]"

Mas não são só os negros. As mulheres também levam ataques à sua mentalidade inferior.

"Tinha tido dezenas de amantes, tinha sido, era ainda casado, conhecia a fundo a natureza, a organização caprichosa, nevrótica, inconstante, ilógica, falha, absurda, da fêmea da espécie humana; conhecia a mulher, conhecia-lhe o útero, conhecia-lhe a carne, conhecia-lhe o cérebro fraco, escravizado pela carne, dominado pelo útero; e, estolidamente, estupidamente, como um fedelho sem experiência, fora se deixar prender nos laços de uma paixão por mulher!"

É engraçado que o autor explica não só a natureza da mulher, mas também quase todos os comportamentos, especialmente os sexuais, como movidos pelos instintos, humores, ou seja, pela biologia. O livro - famoso pelas suas passagens eróticas que geraram até mesmo uma polêmica com o padre Senna Freitas, que quis banir o livro na éoca de seu lançamento - hoje soa de um cientificismo bobo. A todo momento o narrador ou os personagens ficam cuspindo explicações e detalhes completamente desnecessários para a trama, seja sobre a energia elétrica, sobre a natureza humana, ou sobre as espécies de animais encontradas no campo. Veja essa diálogo, que ocorre durante uma caçada:

"- Mas são mesmo queixadas?
"- E dos maiores.
"- Boa carne?
"- Excelente, melhor ainda que a do tateto.
"- Em que se diferencia a queixada do tateto?
"- O queixada, dycotylus torquatus, vive só na mata virgem, é maior e muito mais feroz do que o tateto, dycotylus labiatus, que é pequeno, medroso e que vive às margens da capoeira. A nota, porém, característica que os distingue é ter o queixada queixo branco, como está vendo."

Mais pra frente o herói salva a mocinha de uma picada de cobra:

"- O meu tratamento foi todo racional: pus em prática o que aprendi de Paul Bert, que o aprendeu de Claude Bernard. Vossa mercê conhece bem o jogo da circulação. O sangue hematoso nos pulmões vai, pela veia pulmonar, armazenar-se nos compartimentos esquerdos do coração: daí sai pela aorta, transfunde-se, torna carregado de resíduos pelas veias, entra na aurícula direita do coração, recolhe os elementos reparadores trazidos pelas veias subclávias, passa para o ventrículo respectivo, volta a depurar-se, a reoxigenar-se nos pulmões, e assim por diante, sempre. Ora muito bem. No caso de uma infecção qualquer de veneno, de uma mordedura de cobra por exemplo, há três fases, três etapas indefectíveis: primeira, dissolve-se o veneno nos humores animais que se encontram na ferida; segunda, penetra o veneno nas veias e é levado ao coração; terceira, põe-se o veneno em contato com os elementos orgânicos do corpo por meio da torrente arterial. [...]"

Isso é só mais ou menos 30% desse parágrafo, acho que já deu pra entender. Mas o mais engraçado está num trecho onde, por carta, uma personagem descreve sua viagem a São Paulo, incluindo aí as coisas e pessoas que ela encontrou:

"Encomenda de Júlio Ribeiro, um gramático que se pode parecer com tudo menos um gramático: não usa simote, nem lenço de Alcobaça, nem pince-nez, nem sequer cartola. Gosta de porcelanas, de marfins, de bronzes artísticos, de moedas antigas. Tem, ao que me dizem, uma qualidade adorável, um verdadeiro título de benemerência - nunca fala, nunca disserta sobre coisas de gramático."

Sim, o Júlio Ribeiro, sem mais nem menos, fugiu da trama pra enfiar no meio do livro um elogio a ele mesmo. Hilário. Acho que "não se fazem mais romances como antigamente".



* 28 de setembro foi a data da promulgação da Lei do Ventre Livre

22.10.08

Feriado! Comemore!

Como um adendo ao post ali abaixo (Sem Título), parece que o Sr. governador Sérgio Cabaral adiantou o feriado do dia do funcionário público esse ano do 28 de outubro para o 27, de modo que teremos um fim-de-semana prolongado, pelo menos aqui no Rio. Recheado com eleição. Um ótimo motivo pra viajar e não votar! U-hu!


ps - de qualquer maneira acho que se meu título fosse de BH eu não votaria. Ter que escolher entre o sócio do Dantas e o caipira fundamentalista é fornicação, né.

21.10.08

metalinguagem #1

Minha média de postagens nesse blog tem sido uma por semana, que é um pouco abaixo do que eu queria (na verdade eu acho que duas por semana tava bom), mas que até que é uma regularidade razoável pra alguém que está escrevendo mestrado, é enrolado pra caramba etc etc.

O lance é que eu poderia aumentar a freqüência se eu escrevesse menos, se eu fizesse posts mais rápidos, sobre assuntos menos elaborados. Meio sem querer, quase todos meus posts são longos e meio cansativos. Dado que blogs não "fazem diferença" mesmo e só os meus conhecidos lêem isso aqui, pra que ficar me preocupando em pensar num assunto interessante e desenvolver argumentos mais ou menos coerentes sobre eles? Não seria melhor simplesmente digitar as bobagens que passam pela minha cabeça? Mas aí eu fico pensando: ah, se fosse pra falar sobre que horas eu vou no banheiro e sobre que tipo de azeite eu coloco em cima da minha salada, eu fazia um twitter, e não um blog.

16.10.08

Lá vem o Sol, Tchu-tchuru!

Semana passada terminei de ler e fichar toda a bibliografia que eu vou usar na minha dissertação - ou pelo menos eu acho. Essa semana eu me programei para começar a escrever - ou pelo menos sentar em frente ao computador e tantar ver se sai alguma coisa. E não é que graças àquelas coincidências mágicas foi exatamente nesta semana que o inverno de fato terminou aqui no Rio? O período de chuvas frescas, ventos frios e até de algumas noites de cobertor, que esse ano foi muito mais severo e longo do que se esperaria de um inverno carioca finalmente acabou, e bem na hora que eu não posso ir na praia, não posso encher a cara de cerveja gelada, e nem ao menos posso ir estudar numa biblioteca onde tenha ar-condicionado, já que eu não tenho laptop. Basicamente, eu tenho que sentar em frente ao PC e torrar meu cérebro enquanto meu corpo também torra e pinga de suor. Ah, e entre as duas e meia e as quatro da tarde bate sol diretamente no meu monitor... Só que nessa hora eu levanto e vou fazer outra coisa, porque também não sou louco.

11.10.08

Quanto vale o show? Ou: o Pearl Jam tinha razão

Quando eu era moleque, o Pearl Jam era uma das minhas bandas favoritas. Digamos que esteve no meu "top 5 bandas" dos nove aos catorze anos. Mas tinha umas coisas neles que me incomodavam um pouco: eles tinham mania de não fazer videoclipes, não gostavam de aparecer na MTV, e ainda vinham com umas conversas estranhas de vez em quando: batiam o pé que o CD deles não podia sair em caixinhas de plástico, só naqueles livretinhos de papelão; e ainda inventaram uma briga com uma tal de Ticketmaster, uma empresa que vendia ingressos pros shows lá dos EUA, mas que a gente não entendia bem como funcionava, e muito menos qual era o problema com ela.

Bem, o Pearl Jam não está mais entre minhas bandas favoritas. Na verdade parei de acompanhar a carreira deles no disco "Yield", de 1997, mas hoje, olhando tudo isto com uma década de distância, percebo que eles tinham razão em quase tudo. Pra começar a MTV é um lixo, e é melhor pra qualquer banda séria se afastar dela - nos anos 90 a gente não notava isso porque a MTV brasileira era melhorzinha que a gringa e do que a MTVbr atual. Depois, discos com capinha de papelão são bem mais legais e bonitos que aquelas caixinhas de plástico que quebram a toa, são pesadas e desajeitadas pra guardar e não tem a menor personalidade - além de serem poluentes.

Mas principalmente, o Pearl Jam tinha razão quanto à Ticketmaster. A empresa chegou no Brasil nesta década, não sei bem em qual ano, mas quase sem ninguém perceber foi tomando conta do mercado de venda de ingressos nas grandes casa de show brasileiras - essas que são capazes de abrigar shows de bandas estrangeiras mais ou menos importantes, como o Vivo Rio aqui, o Marista Hall em BH etc. E simultaneamente vimos o preço dos shows disparar. Costumávamos pagar 20, 30 reais pela meia de shows como Smashing Pumpkins, Oasis e Blur, nos anos 90, e agora esses não saem por menos de 200 reais a inteira, 100 a meia. Olhem os preços dos shows do R.E.M. mês que vem. Até bandinhas meia-bocas como LCD Soundsystem tão saindo por cento e cacetada reais aqui no Rio! Isso pra não falar de eventos de maior projeção, como as apresentações do Sting, da Madonna, do The Police, que tão chegando a preços absurdos: 500, 700 reais. Até o show do Seal (one-hit wonder fracassado) tava mais de 200 reais a meia. E eles ainda tem coragem de cobrar "taxa de conveniência" de 10%, 20% do preço do ingresso no sistema "will call" que é quando você paga pela internet e retira o ingresso na bilheteria antes do show. Um sistema que não custa NADA a mais pra eles.

A estratégia deles é seguinte: fecham contrato com as casas, que não podem vender ingresso por fora, e todo serviço que prestam é vender os ingressos em alguns pontos de venda que eles tem pelas capitais ou pela internet (cobrando as absurdas "taxas de conveniência"). Ou seja: são meros atravessadores, que quase não agregam trabalho e valor real na mercadoria que você está comprando, mas que aumentam o preço final pro consumidor em 200%, 300%. Claro que as casas de show tiram uma graninha daí, deve ser bom pra eles, se não eles não faziam. Mas no fim das contas, quem sai perdendo é quem quer ver o espetáculo. Os preços são tão altos que os ingressos acabam sendo vendidos só para os muito ricos e para os ultrafãs. Não interessa se o show ficar meio vazio, já que os preços são tão altos que já dão lucro pra ticketmaster e pros produtores mesmo com 40% da lotação. E quem quer ver o show, acompanha a carreira da banda, mas não tá a fim de gastar um quinto do seu salário pra ver o Michael Stipe, que se foda.

Sobram os festivais patrocinados pelas milionárias empresas de telefonia celular, ou similares, que ao menos costumam ser vendidos por preços mais razoáveis, mesmo que tenham envolvimento da ticketmaster, já que funcionam como uma publicidade gigante pras empresas que injetam uma grana brutal no evento. TIM festival, Planeta Terra, Claro que é Rock, essas coisas. É o que dá pra uma pessoa normal pagar.

6.10.08

Sem Título

Acho que eu nunca tinha percebido tanta apatia em relação às eleições quanto neste ano. Tudo bem que as municipais são sempre menos empolgantes que as estaduais/federais, e que meu recorte de pessoas com quem converso mudou um pouco, já que me mudei pro Rio. Mas últimas nas mesas de bar que me sentei, nas 3 ou 4 listas de discussão que faço parte, na "Ilha de Caras" do Museu Nacional, o assunto "eleição" rolou bem pouco nos últimos meses, diferente do que eu estava acostumado nos últimos pleitos... E até mesmo nos plebiscitos que eu lembro.

Um bom indicador é que praticamente ninguém que eu conheço aqui no Rio (fora eu e a Ruth) mudou de domicílio eleitoral pra votar nessa eleição - e olha que quase todo mundo que eu conheço no Rio vem de outros estados! Claro que esse negócio de mudar de título tem seus problemas... Tirar o documento novo não deveria ser um, pois hoje em dia ele fica pronto em menos de 15 minutos e nem tem fila pra fazer isso, mas as pessoas têm medo de ser mesário (dizem que quem muda de domicílio tem grandes chances de ser), e sobretudo acho que tem o fator que meio quando você muda seu título de eleitoral de alguma maneira parece que você está oficializando sua mudança de casa, de cidade, como se fosse pra sempre. Claro que isso não precisa ser verdade, mas é algo que pesa.

Enfim, faz sentido não tirar título novo quando você veio apenas fazer o mestrado numa cidade nova, mas aí esperaria-se que algumas pessoas ao menos fossem visitar a a família e aproveitassem pra votar no fim-de-semana... Até onde eu sei, quase ninguém no meu circulo fez isto. E quanto às pessoas que já vieram pro Rio há 6, 8 anos? Dessas também poucas votaram ontem.

Eu não estou querendo dar lição de moral em ninguém, e aliás queria dizer que acho esse negócio de "a grande festa da democracia" ou "venha excercer seu direito de cidadão" uma babaquice sem limites. Acho votar nulo, ou não votar uma posição bastante coerente em boa parte dos casos. Mas é que trantando-se das pessoas com quem eu ando - em geral politizadas, inteligentes, que gostam de discutir assuntos relacionados à política e quase sempre tem posições interessantes sobre o assunto - me assusta um pouco a constatação de que esse ano parece que tá todo mundo pouco se fodendo pra quem vai ser eleito. Justamente porque essas pessoas, pra mim, são o oposto do esteriótipo do "alienado" (aliás, acho essa palavra péssima). E não é como se não houvessem candidatos interessantes para votar aqui esse ano. Essa apatia me assusta.

Pode ser uma mera impressão errada minha. Mas hoje vi que a abstençao bateu recordes esse ano aqui no Rio... Acho que a apatia se espalhou mesmo.