Quando eu era moleque, o Pearl Jam era uma das minhas bandas favoritas. Digamos que esteve no meu "top 5 bandas" dos nove aos catorze anos. Mas tinha umas coisas neles que me incomodavam um pouco: eles tinham mania de não fazer videoclipes, não gostavam de aparecer na MTV, e ainda vinham com umas conversas estranhas de vez em quando: batiam o pé que o CD deles não podia sair em caixinhas de plástico, só naqueles livretinhos de papelão; e ainda inventaram uma briga com uma tal de Ticketmaster, uma empresa que vendia ingressos pros shows lá dos EUA, mas que a gente não entendia bem como funcionava, e muito menos qual era o problema com ela.
Bem, o Pearl Jam não está mais entre minhas bandas favoritas. Na verdade parei de acompanhar a carreira deles no disco "Yield", de 1997, mas hoje, olhando tudo isto com uma década de distância, percebo que eles tinham razão em quase tudo. Pra começar a MTV é um lixo, e é melhor pra qualquer banda séria se afastar dela - nos anos 90 a gente não notava isso porque a MTV brasileira era melhorzinha que a gringa e do que a MTVbr atual. Depois, discos com capinha de papelão são bem mais legais e bonitos que aquelas caixinhas de plástico que quebram a toa, são pesadas e desajeitadas pra guardar e não tem a menor personalidade - além de serem poluentes.
Mas principalmente, o Pearl Jam tinha razão quanto à Ticketmaster. A empresa chegou no Brasil nesta década, não sei bem em qual ano, mas quase sem ninguém perceber foi tomando conta do mercado de venda de ingressos nas grandes casa de show brasileiras - essas que são capazes de abrigar shows de bandas estrangeiras mais ou menos importantes, como o Vivo Rio aqui, o Marista Hall em BH etc. E simultaneamente vimos o preço dos shows disparar. Costumávamos pagar 20, 30 reais pela meia de shows como Smashing Pumpkins, Oasis e Blur, nos anos 90, e agora esses não saem por menos de 200 reais a inteira, 100 a meia. Olhem os preços dos shows do R.E.M. mês que vem. Até bandinhas meia-bocas como LCD Soundsystem tão saindo por cento e cacetada reais aqui no Rio! Isso pra não falar de eventos de maior projeção, como as apresentações do Sting, da Madonna, do The Police, que tão chegando a preços absurdos: 500, 700 reais. Até o show do Seal (one-hit wonder fracassado) tava mais de 200 reais a meia. E eles ainda tem coragem de cobrar "taxa de conveniência" de 10%, 20% do preço do ingresso no sistema "will call" que é quando você paga pela internet e retira o ingresso na bilheteria antes do show. Um sistema que não custa NADA a mais pra eles.
A estratégia deles é seguinte: fecham contrato com as casas, que não podem vender ingresso por fora, e todo serviço que prestam é vender os ingressos em alguns pontos de venda que eles tem pelas capitais ou pela internet (cobrando as absurdas "taxas de conveniência"). Ou seja: são meros atravessadores, que quase não agregam trabalho e valor real na mercadoria que você está comprando, mas que aumentam o preço final pro consumidor em 200%, 300%. Claro que as casas de show tiram uma graninha daí, deve ser bom pra eles, se não eles não faziam. Mas no fim das contas, quem sai perdendo é quem quer ver o espetáculo. Os preços são tão altos que os ingressos acabam sendo vendidos só para os muito ricos e para os ultrafãs. Não interessa se o show ficar meio vazio, já que os preços são tão altos que já dão lucro pra ticketmaster e pros produtores mesmo com 40% da lotação. E quem quer ver o show, acompanha a carreira da banda, mas não tá a fim de gastar um quinto do seu salário pra ver o Michael Stipe, que se foda.
Sobram os festivais patrocinados pelas milionárias empresas de telefonia celular, ou similares, que ao menos costumam ser vendidos por preços mais razoáveis, mesmo que tenham envolvimento da ticketmaster, já que funcionam como uma publicidade gigante pras empresas que injetam uma grana brutal no evento. TIM festival, Planeta Terra, Claro que é Rock, essas coisas. É o que dá pra uma pessoa normal pagar.